A variedade do Português Brasileiro
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Ao
observamos o caminho percorrido pelas línguas naturais ao longo da história,
percebemos que elas estão sujeitas ao fenômeno da variação, ou seja, elas
variam de acordo com as situações condicionais a que são submetidos os falantes
dessa língua. Nesse aspecto, podemos citar o momento histórico em que se
encontram, o espaço geográfico, sociocultural e temático em que se desenvolvem
e também, o canal linguístico que escolhem para se comunicar.
A variação linguística tem sido estudada por duas disciplinas: a Dialetologia e a Sociolinguística.
Os estudiosos da dialetologia selecionam uma área
geográfica para estudo, preparam e aplicam instrumentos próprios para o
levantamento dos dados, que são anotados em cartas e constituem os Atlas
Linguísticos. Os resultados são analisados e compõem monografias sobre os
aspectos particulares desses dados. Para orientar essa atividade, foi proposto
uma divisão dos falares brasileiros em dois grupos: o Norte e o Sul. O Norte
compreende dois sub-falares: o amazônico e o nordestino. Enquanto que, o falar
do Sul compreende a quatro sub-falares: o baiano, o mineiro, o fluminense e o
sulista. Serafim da Silva Neto preparou então, um guia para esses estudos
dialetológicos e desenvolveu uma intensa propagação da ideia de uma
“mentalidade dialetológica” nas universidades.
Já os estudiosos da sociolinguística dão
preferência a um estudo mais verticalizado de uma só comunidade, concentrada em
uma pequena extensão territorial. Os falantes são separados, por meio de
métodos apropriados, segundo o sexo, a idade e o nível sociocultural. No
Brasil, predomina a Teoria da Variação e Mudança de William Labov, em que se
descrevem as regras variáveis do sistema linguístico a partir de valores
linguísticos e extralinguísticos.
Podemos separar a variação da língua portuguesa em
três parâmetros: a variação segundo o canal (o português falado e o português
escrito), a variação sociocultural (português escolarizado e o não
escolarizado); e a variação temática (português escrito corrente e o português
escrito literário).
A variedade
de sujeitos não-escolarizados do Português Brasileiro falado
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Características fonéticas e fonológicas:
1.Vogais
a) Elevação das vogais médias pretônicas no
Nordeste do país.
Esta
característica distingue fortemente os falares do Norte em relação aos do Sul.
A elevação pode conduzir à produção de uma vogal alta (como em filiz, chuver)
ou média aberta (como em nòturnu, còvardi, nèblina, rècruta);
nos dois casos produz-se no Sul uma vogal média fechada (Palácio, 1978”).
b) Queda
ou nasalação da vogal átona inicial: magina (por imagina), inleição (por
eleição), inducação (por educação).
c) Queda da vogal átona postônica, acompanhada
ou não da perda de outros elementos fonéticos da palavra: cosca (por
cócega), abobra (por abóbora), arve (por
árvore), oclos (por óculos), lampa (por
lâmpada), figo (por fígado). Este é um dos fenômenos mais amplamente
difundidos no país e documentados na literatura. Head (1986) constatou que é
mais frequente entre os homens.
d) Nasalação de vogais seguidas de consoante
nasal, quer essa consoante tenha desaparecido (como em lu ~a , u 'a ,
vi'era m ), quer tenha permanecido (como em cãma, pret. perf. amãmos).
e) Perda do contraste vogal/ditongo em
contexto palatal, com monotongação do ditongo (caxa, pexe, bejo, quejo)
ou ditongação da vogal (bandeija, feichar).
f) Desnasalação e monotongação de ditongos
nasais finais:
hómi (por
homem), faláru (por falaram). Também um fenômeno muito
difundido pelo país.
g) Monotongação dos ditongos crescentes átonos
em posição final: ciença (por ciência), esperiença (por
experiência), negoço (por negócio). Metátese: aitga (por
água) estauta (por estátua).
2. Consoantes
a) Uma das questões mais debatidas é a da
difusão r retroflexo, descrito inicialmente por Amaral (1920) como típico do
dialeto caipira, e que ele supunha em desaparecimento. Estudos posteriores
comprovaram a vitalidade dessa variante, encontrável particularmente nas áreas
de penetração bandeirante (Itu, Porto Feliz, Tietê, Atibaia, Bragança,
Piracicaba, Tatuí, Limeira, Taubaté, no Estado de São Paulo), mas ainda no sul
de Minas e na Bahia, ainda que com frequência menor neste último.
O r retroflexo é uma variante do r brando,
e em nenhum lugar compromete a distinção entre este· e o r múltiplo.
Ele ocorre em final de sílaba, mas tem seu uso restringido quando em final de
infinitivo, pois nestes casos predomina a execução φ. Do ponto de vista
sociolinguístico, “na medida em que o estilo varia de mais espontâneo para mais
refletido, entre informantes de uma mesma classe socioeconômica e faixa etária,
a frequência do r retroflexo diminui — o que indica seu caráter estigmatizado”;
ele ocorre menos entre falantes urbanos e mais entre informantes de idade mais
avançada (Head, 1973 e 1975).
b) Troca do l por r em
final de sílaba e em grupos consonânticos formados por /p b k g f/, com
documentação em São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul: marvado (por
malvado), pranta (por planta) etc. Examinando esse fenômeno na
Bahia, Head (1985) concluiu que o l e o r são
alternantes, com frequência maior de uso travando sílaba não final de palavra e
como segundo membro dos grupos consonantais, predominando as formas em r entre
homens analfabetos, e as formas em l entre mulheres
alfabetizadas. Esse mesmo autor destaca a ocorrência dessa alternância no Norte
de Portugal, como uma prova a mais contrária à hipótese meridionalista da
origem do PB (Head, 1987).
c) Troca
de v por b, comum ao Norte de Portugal e
“documentada em variedades rurais de diversas localidades dentro das áreas
principais da expansão colonial por via de Pernambuco, Bahia e São Paulo”
(Head, 1986b, p. 91). Retomando a matéria. Head (1987) considera que se trata
de fenômeno puramente lexical, restrito a alguns itens do léxico comum
tradicional (como barrer, bassoura, bespa, berruga etc.), sem repercussões no
sistema fonológico.
É o que
igualmente concluem Ferreira e Rollemberg (1988), a partir do exame de
materiais de Sergipe e Bahia.
d)
Conservação das africadas [t] e [d], comuns igualmente ao Norte de
Portugal. Essas africadas ocorrem no Mato Grosso como variantes de /ʃ/ / e /ʒ/,
e na Bahia e Sergipe como variantes de / t / precedido de ditongo como em oito
[’otju] e m uito [’mütju] (Rossi, 1968).
e)
Alternância entre [λ] e [j]: [o’reja] (por orelha), [’vejo] (por velho) etc.
Esse é outro dos fenômenos pan-brasileiros. Rossi (1958) constatou que na Bahia
há uma surpreendente manutenção da palatal, que explica como um processo de
reconstrução.
f)
Espiração e queda de -s em final de palavra: [’vamoh] e depois [’vam o] (por
vamos), [d e'p o h ], [de’pô\ (por depois) (Lemle, 1978, p. 74).
Características gramaticais
1. Morfologia
a) Elevação da vogal temática a para e e e para i no
pretérito perfeito do indicativo, para distingui-lo do presente do
indicativo: fiquemo (por ficam os), bebimo (por
bebemos).
b) Perda progressiva do -s para
marcar o plural nominal (as casa) e para compor o morfema número-pessoal
da primeira pessoa do plural (nós sabemo), omissão do morfema
número-pessoal -mos, caso se constitua uma palavra
proparoxítona: nós falava (por nós falávamos).
c) perda do valor comparativo de superioridade nas
formas sintéticas: mais mió (por melhor), mais superior.
2. Sintaxe
2.1. Classes sintáticas
a)
Generalização do reflexivo se para a primeira e segunda pessoas: “eu se
esqueci” , “faz tempo que nós não se falerno mais” , de par com seu
desaparecimento: “eu esqueci”. Desaparecimento progressivo do clítico o,
fato que permeia também a língua culta informal (Câmara Jr., 1957; Omena, 1978)
b) O
verbo recebe a negação mesmo quando precedido de sintagma nominal negativo, como
em “ninguém não viu o lobisomem” (Lemle, 1978, p. 79).
c)
Generalização do pronome que como relativo universal, como o desaparecimento
de cujo , onde, e substituição da relativização
cortadora pela relativização copiadora: “o menino que eu falei com ele”
, “o menino que o pai dele morreu” , “casa que eu nasci lá”. Como
decorrência desse processo, preenche-se “a posição sintática vazia que
corresponde à posição original do sintagma anteposto pela relativização” , como
em “quero mostrar para você uma lanterna que comprei ela ontem” (Lemle, 1978,
p. 83).
2.2.
Relações sintáticas
a)
Concordância nominal: nas classes não-escolarizadas há uma probabilidade maior
de não ocorrência da marcação redundante do plural no interior do sintagma
nominal. Aumentando a saliência fônica entre o singular e o plural, aumenta a
probabilidade de ocorrência da regra de pluralização, e assim “as colheres”
ocorre com freqüência maior do que “as mesas” (Braga, 1977).
Scherre
(1988) procedeu a uma vasta reanálise desta questão, valendo-se de gravações de
alunos de 1° e 2° graus, representativas de um português semi-escolarizado,
tendo concluído o seguinte:
(I) o
número de marcas formais de plural no sintagma nominal é condicionado por
traços estilísticos (formalidade), semânticos (animacidade) e mórficos (normal,
aumentativo ou diminutivo); “é possível então prever que qualquer item lexical
[+ informal], [+ diminutivo] e [ - humano] terá muita chance de não ser marcado
em relação à pluralidade” : “travesseiro, fronha, essas coisinha pra buneca”
, “eles ali tem as barraquinha” , “fizeram umas casinha bunitinha e
tudo” , “com aqueles cabelim branquim”;
(II) a
diminuição de marcação ocorre quando há menos saliência fônica na oposição
singular/plural, quando os itens nucleares ocupam a segunda posição no sintagma
nominal, quando o contexto fonológico seguinte é uma vogal ou uma consoante com
os traços [ + sonoro], [ + labial], [+ dental] ou [+ nasal], e quando o
sintagma nominal tem função resumitiva;
(III) do
ponto de vista da mudança lingüística, nota-se que a concordância nominal
representa uma “variação estável com gradação etária nos falantes de
concordância alta, e um processo de mudança lingüística em direção a um sistema
sem concordância nos falantes de concordância baixa”.
b)
Concordância verbal: Lemle e Naro (1977) descobriram que a regra de
concordância verbal está sujeita a determinadas variáveis:
(I)
variável morfológica: quanto maior a saliência fônica da oposição entre a forma
verbal do singular e do plural, tanto maior a ocorrência da regra de
concordância;
(II)
variável posicionai: o sujeito imediatamente anteposto ao verbo favorece a
concordância;
(III)
variável semântica: o sujeito indeterminado desencadeia a concordância com frequência
maior que o sujeito determinado;
(IV)
variável estilística: as situações de maior formalidade favorecem a regra de
concordância. Rodrigues (1987) mostrou que no português popular de São Paulo as
formas verbais de 1ª pessoa do plural quase não são realizadas, e que na 3ª
pessoa do plural “a crescente saliência da oposição singular/plural está
correlacionada com a probabilidade crescente de concordância”, o que confirma
os resultados do trabalho anterior. Não tenho conhecimento de trabalhos que
investiguem outros aspectos da sintaxe do PB falado não-escolarizado, tais como
relações sintáticas de reação e de colocação dos constituintes na oração ou
mesmo sobre as estruturas textuais desta modalidade.
A variedade escolarizada de
Português Brasileiro falado
1.
Características fonéticas e fonológicas
Uma das
primeiras discussões sobre a fonética do português brasileiro falado culto foi
a respeito da fixação da pronúncia padrão. Após congressos realizados,
foi decidido que a pronúncia padrão brasileira correspondia à variedade carioca.
Rodrigues (1968) mostrou que o predomínio do falar carioca nunca foi
comprovado, e aconselhou a realização de estudos descritos das diferentes
variedades do português brasileiro, destacando que os locutores de rádio e
televisão se valem de uma pronuncia não marcada, utilizando-a nos noticiários.
O Português
Brasileiro escrito (corrente e literário)
O grande prestígio da
língua literária retardou o reconhecimento da importância da língua escrita
corrente, de interesse informativo e argumentativo (jornalismo, oratória
política, correspondência, comunicação de massa, relatórios, textos
científicos).
Durante o período
colonial, nossos escritores produziram suas obras de olhos postos em Portugal.
Não havia ensino público no país, o analfabetismo era extensivo, e curso
superior só daria seus primeiros passos no começo do século XIX. As elites iam
buscar sua formação em Lisboa e em Coimbra, e sua linguagem espelhava o padrão
escrito dessas cidades.
Com o Romantismo,
desenvolve-se um sentimento nacionalista de autoafirmação e antilusitanismo.
Levanta-se forte oposição ao estilo literário vigente no Brasil-Colônia, em que
se via subserviência à metrópole e uma humilhante imitação de seus escritores.
Alencar agita a questão da língua brasileira, que conheceu muitas variantes,
detalhadas em Pinto (1978, p. Iii).
O Parnasianismo e o
Simbolismo, mostraram-se francamente conservadores. Em 1897 funda-se a Academia
Brasileira de Letras, que deveria zelar pela “pureza” do idioma e reagir contra
os fatores da diversificação.
O Modernismo deu importantes
contribuições ao português brasileiro escrito literário:
(I)
Diminuíram a distância entre a língua
escrita e a língua falada, retratando a fala das personagens e incorporando
regionalismos.
(II)
Os modernistas alçaram à importância de estilo
nacional o que era antes considerado erro, ignorância de brasileiros.
Conclusão
Em face de todas essas
informações a respeito das variações do Português Brasileiro, podemos concluir
que o dinamismo da nação brasileira, em sua multiplicidade de regiões, culturas
e estilos de vida, estará sempre sujeita a um intenso processo de mudança.
Afinal, nossa língua ocupa, atualmente, o quinto lugar entre as línguas mais
faladas do mundo. Somente no Brasil, somos aproximadamente 212,6 milhões de brasileiros,
logo, falantes do português. As pesquisas sobre o decurso de nossa língua
apontam para um rearranjo dos sistemas fonológico e gramatical. Desse modo,
após nosso breve estudo acerca das variações linguísticas, vemos que apesar de
nossas diferenças, a língua ainda nos une de modo incontestável.


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